Expedição Saídas e Bandeiras - Pt 02

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Nota #6

19, 20, 21 e 22/10

Escrevo com 5 dias acumulados e tentar relatar o que se passou nesse intervalo de tempo, além de ser um exercício da memória, é também um desperdício de palavras. Não tenho condições de igualar via texto o que tenho vivido. Ao menos a fotografia tem me dado um meio de externar organicamente a grandeza desses grandes momentos.

Mas como narrar é importante, gostaria de não mais me ater à cronologia dos fatos, relatando não só o que é importante, mas também as banalidades que permeiam uma viagem como essa. Várias vezes, sentado na moto, prometo me lembrar de uma esquina, uma frase ligada a uma paisagem, ou qualquer outra coisa que seja a síntese de um pensamento maior. E esse momento de compreensão, mesmo que logo esquecido, muda algo na minha vida.

A decisão de deixar San Pedro do Atacama foi prorrogada, precisávamos explorar um pouco mais a região. Folga para La Tenebrosa, hora extra para a Defender, que enfrentou estradas duras, quase intransponíveis, tendo até que rebocar carro atolado a 4 dias em areia profunda e rodar à 100km/h em estrada de chão, conduzida de forma majestral por Tana.
Conhecemos o frio e isolamento das lagunas altiplanicas, as águas quentes e cristalinas de Puritama e outros tantos cartões postais. “Hasta que dure la Plata” foi o grito de guerra desses 2 dias de tranquilidade.

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21/10 - Iquique

Tenho tentado ouvir mais os conselhos de bons amigos e pessoas experientes e, mesmo que não concorde, entendê-los.
Foi menos minha a decisão de não abrir o carburador da moto e não levá-la mais ate Juan, senhor simpático de índole duvidosa que foi meu mecânico em San Pedro, o plano era tentar a sorte até Antofagasta, 250km. Confiamos em La Tenebrosa.Enchemos os tanques e estrada.

Na saída a rota sofreu uma alteração repentina: ao invés de Antofagasta, subiríamos a Iquique. Lá veríamos o Pacífico pela primeira vez na Expedição. Fizemos cerca de 500km em um longo dia, rasgando uma região extrativista do deserto, rodeados de pequenos tornados de areia, muito vento, rajadas que batiam no peito e tiravam a moto da estrada quando passavam caminhões no sentido contrário. Quando finalmente a noite nos alcançou, chegamos a um posto de gasolina. Já estava abastecido pelos 5 litros extras que carrego na defender. Muito frio, tanque cheio, café, pan jamon, queso y huevos no restaurante em frente ao posto.

Comentei como havia algo de sombrio nessa rota… um ar pesado, um deserto habitado por grandes máquinas que retiram do solo algo de valor, provavelmente cobre. Um clima desumano. Danilo me diz que passou o dia todo com o mesmo sentimento, a estrada nos impõe emoções e sensações físicas.

O último trecho foi em meio à noite, em algum momento um cachorro branco cruza a minha frente quando estava a 80km/h. Apenas um grande susto. A chegada a Iquique é impactante! Vemos a cidade do topo de uma montanha, e vamos diretamente ao seu encontro por alguns quilômetros. Não achamos onde acampar, acabamos num hostel.

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22/10

Iquique logo se revelou um erro. A falta de ondas e de lugar pra acampar nos afugentou novamente para a estrada, rumo a El Loa, uma praia totalmente deserta, onde acampar dependia só da nossa vontade (e habilidade). A expectativa por ondas só aumentava. Nos carregamos de suprimentos, partimos e 150km depois chegamos à praia. Realmente não encontramos muita coisa além de areia, milhares, eu digo, milhares de pássaros e algumas focas. Uma praia extensa ao pé da montanha só nossa por 2 noites e 3 dias. Bons momentos, mesmo sem ondas. Armamos nossa estrutura completa e passamos bem! Comida, vinhos, banho de mar, muitas aves, fins de tardes pacificas, belas fotos e partida!

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Nota #7

23, 24, 25, 26 e 27

Confesso que os últimos dias não me causaram grande inspiração para a escrita. Estamos beirando os 6.000km de viagem. A paisagem desértica, mesmo que gradualmente em transformação rumando ao sul, já nos cansa - uma paisagem agressiva aos olhos e a mente. Tudo muda em minutos: vento, temperatura, humor…um jogo cansativo.

Há 3 dias nossa principal tarefa tem sido a quilometragem, buscando alcançar os dias que nos escaparam. A tarefa de fazer 600km é desgastante em todos os sentidos. La Defensora e La Tenebrosa inevitavelmente também sentem, e as oficinas são constantes.

O deserto agora tem cerca. O verde pinta a paleta arenosa que nos acompanha por quase 10 dias. Nossos últimos pernoites foram em Antofagasta, Bahia Inglesa e La Serena, 3 lugares que nos propuseram experiências completamente diferentes. Antofagasta nos obrigou a nos hospedarmos em um Hostel. Ambos os veículos passam o dia na já famosa Pernotronic, a mecânica comandada por Antonio. Muita conversa boa, pero la plata se vá, ajustes necessários são feitos e, depois de duas noites, Antofagasta nos permite ir embora.

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Bahia Inglesa, um balneário muito turístico quando em alta temporada, nos proporciona mais um acampamento à beira do mar. Sem camping, sem regras, estamos autossuficientes. A noite nos surpreende com rajadas de ventos e cachorros ladrões em busca de sobras do risoto de sardinha da noite anterior.

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Mais um acampamento em La Serena. Agora nos fundos de uma pousada… wi-fi para por tudo em dia, o melhor banho até agora e a descoberta do que por hora me parecia o fim prematuro de La Tenebrosa: um problema elétrico causado pelo pólo negativo da bateria que havia passado o dia todo com mal contato, causando variações de carga que queimam quase todas as lâmpadas da moto e que fritaram o retificador. Um momento que me fez pensar em maneiras de continuar a viagem sem ela. Muitas foram as possibilidades em meia hora de conversa no café da manhã (a moto já nem ligava mais): desmontamos e amarramos as partes vitais na Defender, levo só o motor, abandono e foda-se, vendo as peças no próprio Chile, ateio fogo e filmo…por aí vai.

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Já de barriga cheia passo ao lado dela, que ouvia nossa conversa de perto. Tento ligar, magicamente ela liga, cuspindo fumaça! La Tenebrosa vem desviando bravamente de possíveis rebocamentos - até agora nenhum, nem por problemas mecânicos, nem por falta de gasolina. Alguns tiros passaram raspando!
Nove da manhã, precisamos fazer 600km até Pichilemu, porém nossa missão principal é a saída em busca de alguém que possa dar sobrevida à moto. Acho um mecânico pela internet, o GPS nos manda para 3 lugares errados e isso consome quase 2 horas do nosso dia. Quando havíamos decidido esquecer o problema e seguir viagem até que La Tenebrosa aguentasse - o que não seria muito - acho um mecânico abrindo sua oficina e loja. Vicente, pai de 5 filhos, desses, 3 pilotos de motocross. Sua esposa no caixa, os filhos ajudando na loja e na oficina. Logo é confirmado o problema que havia diagnosticado com a ajuda do Murilo. Começamos a substituir por uma peça nova, e faço melhorias na ventilação para evitar futuros problemas de superaquecimento. 

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Das 6hrs da manhã às 13hrs, Fag, Danilo, Murilo e Tana, esperam por mim pacientemente. Não tenho como descrever o apoio mútuo que rola entre nós, mesmo que a convivência em alguns momentos altere o estado de fluxo, nada parece estremecer nossa fundação como Expedição, e quando os ventos sopram forte demais, 15 minutos de conversa dissipam a neblina que encobre os verdadeiros motivos e objetivos dessa viagem. Tenho certeza que o que vivemos juntos até agora vai ecoar na existência de todos nós, para sempre.

Quando estávamos deixando a oficina de Vicente, Danilo vem até mim e manda:

- Agora é só tu achar um baseado para nós hoje que tá paga a dívida (hahaha).

Prontamente aceito e acho justíssima a proposição.
3 minutos após essa conversa paro para encher o tanque da moto, um frentista muito simpático me atende, enquanto La Defensora adentra o posto como uma chaminé de fumaça, dentro todos com cigarros acesos.
O Frentista me olha e fala: (desconsiderem o espanhol fraco)

- Sus amigos?
- Si!
- Te gostaram la Marijuana de San Pedro?
- Si, muy buena, pero non la tenemos mas.

Muitas risadas e frases trocadas, ele decide nos presentear com um fumo caído do céu!

Logo paro e penso: Porra, o Danilo acaba de me falar sobre isso e 3 minutos depois acontece uma coisa dessas? Peço desculpas à pela minha falta de crenças, mas se não é um sinal de algo, não saberia dizer o que é.

Com essa pegamos a estrada renovados, inspirados pelo acaso e vislumbrando o que esse mundo nos reserva. Que sentimento amigos!

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Nota #8

28/10 a 03/11

Pichilemu é um capitulo à parte em nossa jornada. Talvez o lugar que mais alterou as fundações da expedição: foram 4 dias acampados no quintal da Lu, que nos recepcionou de forma especial, sem nunca ao menos reclamar da bagunça feita por 5 viajantes.

Vimos Punta de Lobos quebrar com 4 metros num por do sol clássico. Vimos também nossa formação sendo alterada drasticamente: daqui seguimos seguimos viagem em apenas 3. Como toda expedição ou viagem entre amigos, rachaduras e prioridades distintas podem ocasionalmente surgir. Entre eu, Tana e Danilo, ficou decidido que nada nos tiraria o foco de chegar à Patagonia Argentina, mais precisamente San Martin de Los Andes. Seguimos viagem, enquanto Murilo e Fagner rumaram pra Santiago com outros planos. Hora de pegar a estrada de novo, Temuco!

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Logo na saída de Pichilemu, ainda de noite, um barulho estranho na roda traseira da moto começa a me deixar preocupado. Após inúmeras paradas sem diagnóstico preciso, a moto subitamente fica sem freio traseiro. 500km pela frente, paro, respiro e me preparo para pilotar sem freio até Temuco. A atenção com frenagens precisou ser redobrada, pois agora só o freio dianteiro e reduzidas de marchas me auxiliam para diminuir a velocidade da Tenebrosa.

A chegada em Temuco é no fim de tarde. Vamos direto em busca de casa de câmbio e afins para logo sermos recebidos por Karem e sua família, que Tana conheceu no Atacama. Ela nos leva à um parque onde podemos ver a cidade de cima e entender um pouco melhor a região e sua história de guerra e paz com os indígenas Mapuche.
Dali fomos à sua casa para um banho, onde também descobriríamos que passaríamos a noite em belas camas e comeríamos como reis, Lomito com pan, abacate, verduras e alegria. Sua Tia, dona de uma Carniceria, nos serve sua especialidade e de maneira simpática e plena nos conta um pouco de sua história, de como perdeu quase tudo quando o Mercado Público da cidade queimou por completo, acabando com o negocio tradicional de famílias que por anos fomentaram e mantiveram ali, vivas, as tradições locais e que agora, sem casa, assistem um à um os shoppings serem levantados no mesmo lugar. Uma trágica homenagem que logo nos faz lembrar de tantas histórias parecidas que a especulação imobiliária proporciona no Brasil, principalmente nos litorais e áreas de preservação.

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Acordo cedo e parto sozinho buscando resolver o problema de freio. Descubro que é muito mais grave do que imaginava. Seriam 4 dias para consertar… tempo que não podemos gastar parados em uma cidade. Todos temos compromissos e a vida nos chama no Brasil.
Logo chegamos a uma decisão: é hora de dar o braço a torcer e admitir que La Tenebrosa não roda mais. O que vem a seguir, no meu coração, é uma mescla de decepção e orgulho ferido, que logo passa e se transforma em um sentimento de dever cumprido, aprendizado e lição.

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Decidimos tirar as duas rodas da moto e içá-la ao topo da Defender. Tarefa mais fácil na teoria do que na prática. Com a ajuda de algumas almas boas ela logo está no seu posto, amarrada de pé, de frente para as paisagens. Ela pode não ir rodando, mas vai com a gente. Vou ligar ela em San Martin de Los Andes, seu ronco alto vai ser ouvido e o ar Patagônico vai cruzar seu carburador!

Agora seguimos viagem em 3, sem moto, todos dentro de La Defensora, uma bela síntese para mim. A moral está alta, em 3 somos mais fortes, mais rápidos e mais tranquilos. La Defensora defendeu La Tenebrosa e a carrega nas costas rumo à Patagônia argentina.

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